quarta-feira, 13 de julho de 2016

Manto de Fogo - Parte I

Inaugurando nossa sessão de contos e histórias, trazemos a primeira parte de "Manto de Fogo", uma história cheia de magia escrita pela colaboradora Ingrid Boni.



Certamente não era uma boa época para as bruxas. “Bruxa”, Katherine não gostava deste nome, lhe parecia algo tão malvado e devasto, nada do que ela fazia era de todo ruim. Assistia em silêncio uma desconhecida ser queimada na fogueira enquanto inúmeros outros desconhecidos gritavam “queimem a bruxa” ou algo estupidamente parecido. Olhando em seus olhos podia dizer, a mulher que queimavam certamente não era uma, no máximo era alguém que mexia com algumas ervas para agradar algum aldeão qualquer. Katherine sorriu com escárnio, era por isso que iam parar demais na fogueira.
             Balançou a cabeça negativamente e viu outra mulher lhe encarando fixamente, seus olhos castanhos eram rígidos e escuros, mas Katherine não se importou, tinha a personalidade forte e exibida, abriu um largo sorriso para a mulher e virou-se fazendo que seus cabelos loiros e ondulados voassem. Carregava uma cesta de compras da feira com algumas frutas, um coelho para o jantar e pães. Gostava de visitar a cidade e flertar com alguns homens, como gostava de ver as novidades com alguns feirantes, era muito bonita e quem a conhecia a adorava, apesar de nunca conseguirem saber nada sobre sua vida.

             Katherine morava dentro da floresta, sozinha, mas sempre dizia que morava com sua mãe, para assim não ser alvo de olhares estranhos, mais do que normalmente já era. Vivia uma vida pacata, nunca conhecera seu pai e aprendera desde pequena com sua mãe os feitiços, as regras e o amor pela natureza. Tirando em dias que ia à feira dificilmente via outras pessoas, sobrevivia com o dinheiro que conseguia vendendo algumas roupas que costurava. Nunca havia conhecido ninguém que a fizesse ter vontade de formar uma família, mas naquele momento estava feliz com isso. Depois de preparar algo que pudesse comer e costurar algumas encomendas o sol já estava se pondo e a jovem se sentia cansada. Saiu de casa e foi andando pela floresta que já conhecia muito bem, apenas parou quando chegou em uma lagoa, a água era clara e fria. Katherine tirou o vestido e o largou em cima de um galho, para que não molhasse, seu corpo era jovem e firme. Olhou o próprio reflexo, estava muito parecida com sua mãe e isso lhe agradava. Mergulhou, gostava de sentir aquela sensação à luz da lua. Ao voltar à superfície assustou-se, novamente aquele par de olhos castanhos lhe encaravam, uma mulher pequena e pálida.


              – Quem é você? – Perguntou Katherine.
A mulher não respondeu, tinha algo em sua mão e seus lábios se mexiam rapidamente, Katherine demorou a perceber o que a mulher estava fazendo, até que a mesma jogou algo na água e em segundos o lago começou a congelar. Katherine arregalou os olhos, teria um grande problema se não começasse a nadar, sentia seu corpo gelar cada vez mais. Por sorte conseguiu chegar à borda a tempo antes que ficasse congelada junto com as águas. A mulher estranha havia sumido e levado consigo as roupas de Katherine.
             Deve estar de brincadeira! – Katherine bufou. Escutou o barulho de algo se mexendo na floresta, se virou e viu um rapaz lhe encarando surpreso, estava vermelho de vergonha e impressionado com a beleza de Katherine.
              Você precisa de ajuda? – Ele gaguejou.
           Não se preocupe, eu estava nadando e alguém roubou minhas roupas. – Katherine parecia não se importar de estar nua na frente de um desconhecido, mesmo que fosse um rapaz. Tratava aquilo com muita naturalidade.
             O lago está congelado. – Não havia como o rapaz ficar mais boquiaberto do que já estava, não entendia nada do que acontecia ali, em pleno verão e com a temperatura atual era impossível que o lago estivesse daquela maneira.
             Obrigada pela observação, mas ele não estava assim segundos atrás. – Katherine respondeu irritada e começou a andar em direção a sua casa. O rapaz a seguiu em tropeços.
             Você quis dizer que ele se congelou do nada?
             Não, alguém o congelou. E se eu ver aquela vadia novamente eu vou congelar o rabo dela.– Katherine mordeu os lábios, sua mãe não gostaria que falasse daquela maneira. O que estava fazendo?! Falando demais para um humano e ainda o levando na direção da sua casa. – Escute, ... Joffrey. – Disse ele se concentrando em apenas olhá-la nos olhos.
            Escute, Joffrey. – Ela sorriu docemente. – Foi muito gentil da sua parte tentar me ajudar, mas eu não sei o que aconteceu lá, só quero ir para casa e quero ir sozinha. Obrigada. – Katherine virou-se e o deixou ali sozinho. Passou o resto da noite pensando quem era aquela estranha mulher e porque tinha feito aquilo.
             A semana havia passado e não mais sofreu ataques, então voltou a ficar tranquila, provavelmente a mulher era apenas uma viajante. Guardou as roupas encomendadas na cesta e saiu andando em direção à cidade, aquele dia teria muitas entregas, provavelmente levaria boa parte do dia. Andava no meio de uma rua lotada quando escutou alguém lhe chamando, suspirou por ter reconhecido a voz. Ao se virar viu o rapaz da semana passada, olhando á luz do dia era de beleza razoável, com cabelo muito loiro e olhos pretos.
             Ei. – Ele a alcançou – Finalmente te encontrei, estava preocupado que não tivesse chegado em segurança em sua casa.
        Não precisava se preocupar, Obrigada. – Respondeu gentilmente, mas também mecanicamente.       – Com licença, tenho muitas entregas para fazer.
        – Eu posso te ajudar. – O rapaz sorriu. – Qual é o seu nome?
       – Katherine. – A jovem voltou a andar, não seria de todo ruim ter uma ajuda que não atrapalhasse.
       – Muito prazer. Me chamo Joffrey –  Mesmo já tendo se apresentado antes, ele voltou a repetir, para ter certeza que a jovem não se esquecesse, porque ela realmente tinha esquecido. Pegou a cesta da mão de Katherine, para que pudesse ajudá-la. Os dois passaram o dia juntos, conversando, entregando roupas e fazendo novas encomendas. O sol começava a se pôr quando a última roupa foi entregue e a última encomenda anotada. Voltaram para a rua central, Katherine estava sendo muito mais simpática e gentil depois que havia percebido que Joffrey era um bom rapaz e divertido.
         – Quando vou te ver de novo? – Perguntou ele.
         – Bem, semana que vem eu volto para entregar essas encomendas.
         – Só semana que vem?
Katherine mordeu os lábios.
       – Na verdade eu tenho que comprar mais tecido, então provavelmente amanhã venha na cidade de novo.
        – Vou estar esperando. – Joffrey sorriu e se despediu. Os dois se separaram e Katherine voltou para casa, naquela noite se sentou na frente da lareira e pensou como seria ter uma família. Aos estalar os dedos o fogo se intensificou e apagou. Katherine foi dormir animada para o dia seguinte.
       O dia seguinte chegou e o céu estava nublado, mas isso não impedia que Katherine continuasse animada para voltar para a cidade e poder conversar mais com Joffey. Vestiu seu melhor vestido e saiu de sua humilde, porém confortável, casa. Quando lá chegou, não demorou para que encontrasse o rapaz, ele estava alegre e sorridente como sempre demonstrava ser.
         – Bom dia, Kath. – Joffrey vestia roupas leves e bonitas e apesar de não ter muito certeza, pensava que o jovem não era um plebeu qualquer. Aparentemente já havia começado suas compras, pois tinha em suas mãos uma cesta com algumas frutas. Pegou uma maçã e ofereceu para a jovem.
          – Obrigada, mas não gosto muito de maçãs. 
         – Que pena, estão tão bonitas, uma mulher vendeu-as para mim num preço muito aceitável. – Joffrey comeu a maçã que oferecera.
         Katherine não havia associado qualquer possibilidade até que pouco depois, Joffrey começou a ficar cansado e pálido, suava frio e sentia aos poucos seu estômago embrulhar. Preocupada Katherine o levou para sua casa, coisa que nunca fizera antes, levar um desconhecido para lá. O deitou em sua cama, com sua experiência já podia afirmar que ele tinha sido envenenado. Jogou as maçãs no fogo e este ficou verde por alguns segundos.
          – Joffrey, que mulher lhe vendeu essas maçãs? – O jovem estava ruim demais para que pudesse responder. Katherine poderia tentar usar sua magia e curá-lo, mas isso seria arriscado, pois nunca tinha tentado antes e isso poderia entregar sua identidade. Ela foi até o espaço reservado para as coisas da cozinha e misturou algumas ervas que fariam o jovem melhorar, muito lentamente, mas iria, a poção que havia na maçã não tinha o intuito de matar. – Tome isto. – A jovem deu o chá para Joffrey e ele tomou com dificuldade. – Pronto, logo você vai melhorar, você quer que eu avise alguém da sua família? – perguntou ela, mas ele já havia adormecido. Enquanto o tempo passava ela fazia suas tarefas que normalmente estaria fazendo se não houvesse um jovem desmaiado em sua cama.No meio da tarde escutou um barulho em sua porta e alguém estava entrando, se escondeu nas sombras e quando viu a mulher pequena e estranha entrar a primeira coisa que fez foi estender a mão e do centro desta, um raio vermelho saiu de Katherine e a atingiu fazendo que a mulher fosse lançada para fora novamente com as roupas em chamas. Kath saiu de sua casa, a mulher recuperava o fôlego estirada no chão depois de apagar desesperadamente o fogo.
            – O que você quer comigo? – Perguntou.
           A mulher sem responder pegou um frasco de seu bolso e lançou sobre Katherine, esta se defendeu com o braço e o mesmo começou a queimar. Katherine balançou e com raiva fez com que um círculo de fogo aparecesse em volta da sua adversária.
           – Eu vou matá-la se não me responder.
           – Apenas estou seguindo ordens. – Respondeu assustada.
           – De quem?
         Sem responder, a mulher jogou algo no fogo que o fez desaparecer. E saiu correndo. Katherine não a impediu.
        – Esses truquezinhos não vão te proteger por  muito tempo! – Gritou Kath e voltou para dentro da casa, Joffrey estava sentado na cama ainda meio zonzo.
          – Que barulho era aquele? – Perguntou.
         – Não se preocupe, Joffrey, eram apenas crianças fazendo badernas. Volte a descansar que farei algo para você comer.
        Katherine beijou-lhe a testa, realmente pela primeira vez a ideia de ter uma família lhe preenchia muito a mente. Mas ainda estava preocupada sobre quem estaria atrás dela.




Um comentário

  1. Já quero o resto da história!
    Tô adorando! ^^
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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